KnoWhy #268 | Dezembro 12, 2017

Por que Leí é descrito como semelhante a Moisés?

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Scripture Central

"E ele será grande como Moisés, o qual eu disse que suscitaria para vós a fim de libertar meu povo, ó casa de Israel. E suscitarei Moisés para tirar teu povo da terra do Egito." 2 Néfi 3:9-10

O conhecimento

Ao longo de 1 Néfi, e talvez mais claramente no relato do discurso de despedida de Leí a sua família (ver 2 Néfi 1-4), Leí é descrito como o profeta Moisés. O fato de Néfi retratar seu pai como a figura de Moisés demonstra que Néfi estava familiarizado com as antigas tradições israelitas populares em Jerusalém naquela época.

O professor da BYU Noel B. Reynolds descreveu vários paralelos entre a descrição de Leí no Livro de Mórmon e a de Moisés no Velho Testamento. Ele explicou que os eventos reais pelos quais Leí e sua família tiveram que passar "tornaram mais fácil para Leí representar uma figura profética como Moisés". Reynolds mencionou que:

Assim como Moisés, Leí recebeu mandamentos em visões de Deus, conduziu seu povo para fora de uma terra iníqua, por um deserto, via um mar e para uma terra prometida. Então, após fazer um discurso de despedida, ele morreu, deixando para uma liderança mais jovem a tarefa de estabelecer um povo, que recém havia feito um convênio, na terra prometida.1

Além disso, como o de Moisés, o chamado profético de Leí envolveu ver Deus (1 Néfi 1:8) e também uma coluna de fogo, da qual ele aparentemente ouviu uma voz celestial (1 Néfi 1:6).2 A coluna de fogo e também a visão de Leí da Árvore da Vida são comparáveis ao relato de Moisés quando viu a sarça ardente (Êxodo 3:1-6).3

O professor Reynolds observou que o "livro da lei", ou o que aparentemente era o livro bíblico de Deuteronômio, havia sido redescoberto no templo de Jerusalém pelos sacerdotes do rei Josias, cerca de duas décadas antes de Leí deixar Jerusalém. O rei Josias deu grande ênfase à mensagem de Deuteronômio ao povo de Jerusalém e arredores, uma mensagem que certamente teria influenciado Leí e sua família. Deuteronômio apresenta as últimas palavras de Moisés ao seu povo, e Reynolds afirmou que Leí conhecia bem essas palavras e fez alusão a elas "em todos os momentos" em seu próprio discurso de despedida à sua família (2 Néfi 1-4).4

Reynolds argumentou ainda que "sem deixar que as referências distorçam ou depreciem de alguma forma sua própria mensagem [...] [Leí] faz de Deuteronômio uma base poderosa — embora não mencionada —para sua própria mensagem a todos os seus leitores, especialmente para aqueles que talvez conhecessem essa versão das últimas palavras de Moisés."5 Algumas das muitas ideias paralelas entre o discurso de despedida de Leí e o de Moisés em Deuteronômio incluem (ver tabela para detalhes):

O porquê

O professor Noel Reynolds explicou:

Pode ser difícil para os leitores modernos entenderem por que um profeta como Leí acharia adequado se comparar ao grande profeta libertador de Israel. Contudo, como Leí e seu povo compreendiam sua própria experiência como tipos e sombras de épocas anteriores (ver Mosias 3:15), a comparação provavelmente era bastante natural. A título de comparação, Leí realmente não teria escolhido alguém melhor do que Moisés.6

Leí e Néfi entenderam que a história, incluindo as maneiras de Deus lidar com seu povo do convênio, se repete. Por verem os eventos do passado prenunciando ou "tipificando" os eventos do futuro (2 Néfi 11:4; Mosias 3:15), era natural que eles "comparassem" as Escrituras a si e a sua situação (2 Néfi 11:2, 8).

Néfi, por exemplo, viu sua família repetir simbolicamente a libertação de Moisés em várias ocasiões.7 Além disso, pelo fato de Deus ter levado a família de Leí de um lugar iníquo para uma nova terra prometida, os membros de sua família naturalmente o viam como uma contraparte de Moisés.8

Os principais festivais de peregrinação ao templo, especialmente a Páscoa, realizados regularmente em Jerusalém, comemoravam (e representavam) os eventos do Êxodo (ver Êxodo 12, Deuteronômio 16:1-8). Como habitantes de Jerusalém, Leí e sua família seriam constantemente lembrados desses eventos e da grande liderança do profeta Moisés. Portanto, teria sido natural e familiar para eles fazer a comparação entre o que estavam passando e o que aconteceu com Moisés e seu povo.

Os antigos israelitas estavam acostumados e provavelmente esperavam que os profetas posteriores a Moisés fossem comparados favoravelmente ao grande legislador de Israel. O registro bíblico inicia imediatamente essas comparações com o sucessor profético de Moisés, Josué, que conduziu os filhos de Israel para fora do deserto, atravessando o rio Jordão em terra seca e entrando na terra prometida (ver Josué 4:14). Os textos bíblicos continuam a traçar paralelos semelhantes, muitas vezes implicitamente, entre Moisés e Gideão, Samuel, Davi, Elias, Josias, Ezequiel, Jeremias, Esdras e a Jesus Cristo.9

Essas tipologias são especialmente proeminentes nos relatos de figuras de transição. Samuel supervisionou a transição do governo dos profetas e juízes sobre Israel para o governo da monarquia sob os reis Saul e David.10 Até mesmo Jesus Cristo foi apresentado como um "novo Moisés"'no Novo Testamento, alguém que veio para cumprir a Lei de Moisés e trazer um novo convênio e uma lei maior.11 Não teria sido natural que Leí fosse chamado a ser profeta, para ser uma figura de transição tão importante para seu povo, e não seguisse o mesmo padrão de tipificar Moisés.

Leí também pode ter tentado atrair seus filhos rebeldes comparando-se a uma figura de autoridade pela qual até mesmo eles tinham grande respeito (1 Néfi 17:22). Como Neal Rappleye argumentou: "Leí recorre à figura de Moisés porque sabe que isso atrairá Lamã e Lemuel, mas, ao mesmo tempo, está usando o tipo de Moisés para sugerir que ele próprio era um profeta verdadeiro e legítimo".12

O surgimento de Leí como um "tipo" de Moisés, liderando seu povo em uma experiência de êxodo dirigida por Deus, fortalece o reconhecimento do Livro de Mórmon como um texto antigo autêntico. Ele foi escrito por israelitas antigos que estavam imersos nas tradições religiosas de seu povo e que viveram suas vidas como seria de se esperar dos habitantes fiéis de Jerusalém daquele período.

A ideia de que Leí poderia ser visto como um profeta comparável a Moisés por seus contemporâneos pode inspirar os leitores modernos a fazer tais comparações e, assim, apreciar a importância de seu papel e o de outros profetas do Livro de Mórmon. Comparações semelhantes também podem ser feitas com os profetas modernos que lideraram os santos nesta dispensação.

Tema compartilhadoLeí (2 Néfi 1-4)Moisés (Deuteronômio)
Lembrar estatutos e julgamentos2 Néfi 1:16Deuteronômio 4:1, 5, 8, 14, 40, 45; 5:1
Guardar os mandamentos e prosperar na terra2 Néfi 1:20; 4:4Deuteronômio 28:15; 29:9
Um povo rebelde2 Néfi 1:2, 24–26Deuteronômio 9:6–8, 13
Uma terra escolhida2 Néfi 1:5–9Deuteronômio 5:16; 8:1, 7–10
O Povo do convênio e Sua Terra2 Néfi 1:5Deuteronômio 4:13, 31; 5:3; 7:9; 29:24–28
Um povo escolhido e favorecido2 Néfi 1:19Deuteronômio 4:20, 37; 7:6, 14; 26:18–19; 28:1, 9
A bondade e misericórdia do Senhor2 Néfi 1:3, 10Deuteronômio 7:9, 12
Escolher entre o bem e o mal, a vida e a morte2 Néfi 2:18, 26, 27, 30Deuteronômio 30:15, 19
Absolvição diante de Deus2 Néfi 1:15–17, 21–22Deuteronômio 4:14–15
Dirigir-se às gerações futuras2 Néfi 1:7, 18Deuteronômio 4:9–10; 7:9

Leitura Complementar

Neal Rappleye, " The Deuteronomist Reforms and Lehi's Family Dynamics: A Social Context for the Rebellions of Laman and Lemuel", Interpreter: A Journal of Mormon Scripture 16 (2015): pp. 87–99. Noel B. Reynolds, "The Israelite Background of Moses Typology in the Book of Mormon", BYU Studies 44, no. 2 (2005): pp. 5–23. Noel B. Reynolds, "Lehi as Moses", Journal of Book of Mormon Studies 9, no. 2 (2000): pp. 26–35. S. Kent Brown, "The Exodus Pattern in the Book of Mormon", em From Jerusalem to Zarahemla: Literary and Historical Studies of the Book of Mormon (Provo, UT: Religious Studies Center, Brigham Young University, 1998), pp. 75–98. S. Kent Brown, "Moses and Jesus: The Old Adorns the New", em The Book of Mormon: 3 Nephi 9–30, This is My Gospel, ed. Monte S. Nyman e Charles D. Tate, Jr. (Provo, UT: Religious Studies Center, Brigham Young University, 1993), pp. 89–100.

1. Noel B. Reynolds, "The Israelite Background of Moses Typology in the Book of Mormon", BYU Studies 44, no. 2 (2005): p. 10. 2. Esta coluna de fogo pode ser comparada à coluna de fogo que envolveu o Senhor quando Ele conduziu Moisés e os filhos de Israel para fora da terra do Egito (ver Êxodo 13:21). 3. Pesquisadores notaram a equivalência da menorá do templo (que deveria queimar continuamente, Levítico 24:2) com a Árvore da Vida e a Sarça Ardente que Moisés viu. Ver, por exemplo, Matthew B. Brown, The Gate of Heaven (American Fork, UT: Covenant Communications, 1999), pp. 71–72; Nicolas Wyatt, Space and Time in the Religious Life of the Near East (Sheffield, UK: Sheffield Academic Press, 2001), p. 169; Jeffrey M. Bradshaw, "The Tree of Knowledge as the Veil of the Sanctuary", em Ascending the Mountain of the Lord: Temple, Praise, and Worship in the Old Testament, ed. Jeffrey R. Chadwick, Matthew J. Grey e David Rolph Seely (Salt Lake City e Provo, UT: Deseret Book and Religious Studies Center, Brigham Young University, 2013), p. 51; ver também C. Wilfred Griggs, "The Tree of Life in Ancient Cultures", Ensign, junho de 1988, disponível em lds.org. 4. Reynolds, "Israelite Background", p. 11; Noel B. Reynolds, "Lehi as Moses", Journal of Book of Mormon Studies 9, no. 2 (2000): pp. 26–35.

Para saber mais sobre o significado que a descoberta do Deuteronômio e as reformas religiosas resultantes do rei Josias tiveram sobre Leí e sua família, ver Neal Rappleye, "The Deuteronomist Reforms and Lehi's Family Dynamics: A Social Context for the Rebellions of Laman and Lemuel", Interpreter: A Journal of Mormon Scripture 16 (2015): pp. 87–99. 5. Reynolds, "Israelite Background", p. 11. 6. Reynolds, "Israelite Background", p. 11. 7. Ver 1 Néfi 4:1-3; 17:20,26,44. Ver também as associações evidentes feitas posteriormente por em Mosias 7:19-20; Mosias 7:19-20; Alma 36:28-29. 8. Ver Reynolds, "Israelite Background", p. 11. 9. Ver Reynolds, "Israelite Background", pp. 14–15; ver também David Rolph Seely e Jo Ann H. Seely, "Lehi and Jeremiah: Prophets, Priests, and Patriarchs", em Glimpses of Lehi 's Jerusalem, ed. John W. Welch, David Rolph Seely e Jo Ann H. Seely (Provo, UT: FARMS, 2004), pp. 368–371.

10. Ver Reynolds, "Israelite Background", p. 17. 11. Para um estudo das semelhanças entre Moisés e Jesus, ver S. Kent Brown, "Moses and Jesus: The Old Adorns the New", em The Book of Mormon: 3 Néfi 9–30, This is My Gospel, ed. Monte S. Nyman e Charles D. Tate, Jr. (Provo, UT: Religious Studies Center, Brigham Young University, 1993), pp. 89–100.

12. Rappleye, "Deutermonomist Reforms", p. 98.

Velho Testamento
Profeta
Livro de Mórmon